Pecuária leiteira: Criatividade e tecnologias viabilizam produção com pouca água

10/06/2019

Produção de forragem de sequeiro para silos e de palma forrageira transformam a realidade da Chapada do Apodi e de Quixadá

Tornar a atividade primária viável e sustentável no semiárido cearense é um dos maiores desafios enfrentados ao longo dos séculos tanto pelo setor produtivo privado, quanto pelos sucessivos governos. Ciclos como o do algodão, do couro, da carnaúba foram a marca do desenvolvimento do campo ao longo dos séculos. Contudo, nos últimos anos, experiências ainda pontuais têm provado que a atividade pode crescer em bases sustentáveis, mesmo enfrentando as adversidades climáticas. No último fim de semana, comitiva formada pelas cúpulas da Secretaria dos Recursos Hídricos e da Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh) deixou seus gabinetes para buscar contato com experiências que têm apresentado resultados animadores à custa de opções corretas, tecnologia e organização em cadeia.

A viagem teve início por Quixeré, na Chapada do Apodi. Ali os técnicos conheceram o projeto que transforma água da chuva em silagem. São aproximadamente 600 hectares de sorgo plantados em áreas antes ocupadas por plantações de melão irrigado. “Como a água acabou devido ao agravamento da estiagem, as empresas produtoras de fruta se retiraram da área. Nós arrendamos a terra, que já estava com os devidos tratos culturais e correções necessárias. Daí o desempenho extraordinário da variedade Boliviana do sorgo”, conta Célio Martins, da empresa Agrícola Silagens.

As terras já estavam prontas. A novidade foi aproveitar o período chuvoso para produzir a massa verde (forragem) em larga escala, estocar e guardar em silos para o período de estiagem. “Já trabalhávamos com silagem. O novo aqui foi a terra pronta, a variedade mais produtiva e resistente a veranicos, e o inteiro aproveitamento do nosso inverno”, detalha Martins. Também foram trazidas das regiões sul e sudeste, máquinas especiais para colher e triturar o material, o que garante ainda maior produtividade e melhor aproveitamento da forragem. “A colheita tem de ser feita no tempo certo, com cerca de 30% de massa seca na planta. Então, foi fundamental o emprego dessas máquinas que têm grande capacidade de produção”, diz Martins.

Armazenada em montanhas compactadas, a forragem triturada é distribuída para vários municípios do interior do Ceará e de vários estados vizinhos. “Como produzimos em escala, com tecnologia e solos diferenciados, conseguimos preços competitivos. Dificilmente um produtor isolado conseguiria produzir silagem a preços mais baixos do que os que praticamos aqui”, pontua Martins. A tonelada de forragem é vendida a R$ 80,00 mais frete. “Se por um lado, o pecuarista aumenta seus custos de produção, por outro ela passa contar com outra fonte de renda além do leite, que é o esterco. Isso porque os animais passam ao regime de confinamento”, avalia Martins, destacando a viabilidade da silagem.

VARIEDADE “BOLIVIANA” GARANTE MAIOR PRODUTIVIDADE

A opção pelo sorgo da variedade Boliviana foi um dos fatores que viabilizaram a produção de silagem na Chapada do Apodi (entre Quixeré e Limoeiro do Norte). Trata-se de uma variedade que já era plantada no Mato Grosso, mas praticamente desconhecida no Ceará. Em 2018, produtores se aliaram ao Instituto Federal de Educação de Limoeiro (IFCE/Limoeiro) e realizaram um dia de campo sobre a variedade. Dessa experiência, resolveu-se plantar um piloto de três hectares que foi monitorada pelos estudantes do IFCE.

“Antes plantávamos outras variedades, como o milheto, com produtividade entre 12 e 15 toneladas por hectares. Neste ano, após a experiência que realizamos, plantamos 300 hectares de sorgo boliviano e 300 de sorgo o Ponta Negra, desenvolvido pela Embrapa”, conta Martins. O Boliviano chegou a picos de 61 toneladas por hectare, enquanto o Ponta Negra, já conhecido e utilizado em todo o Nordeste, chega a 30 toneladas por hectare. Foi justamente devido à alta produtividade que surgiu a necessidade de importar colheitadeiras especiais.

“As máquinas convencionais têm capacidade para operar em duas linhas de sorgo. Já as que trouxemos de Minas e do Rio Grande do Sul, trabalham em 12 linhas”, detalha o produtor. Segundo ele, além de diminuir o número de máquinas (e operadores) necessárias para fazer o mesmo trabalho, há o ganho em tempo, proporcionando a colheita no tempo certo de maturação da planta. “O ideal é fazermos a silagem com até 30% de massa seca. Nesse volume, só podemos atingir essa meta com as máquinas modernas”, explica.

“SPA BOVINO” – TÚNEL DE VENTO NA LINHA DO EQUADOR

No Sertão Central, a comitiva de técnicos do Sistema SRH conheceu experiência de produção de leite que alia alta tecnologia à simplicidade da cultura da palma forrageira irrigada. São apenas nove hectares de palma que, associada à silagem de sorgo produzida em outras áreas da Fazenda Equador, em Quixadá, alimentam o plantel de 235 vacas de alto padrão. Os animais são mantidos num “túnel de vento”, galpão confinado, com temperatura e umidade controladas.

Irrigada a partir de um pequeno açude e de um poço de baixa vazão (típico da área de solos de embasamento cristalino), a produção da palma por hectare na Fazenda Equador chega a 400 toneladas/ano. Para tanto, é utilizada a mão de obra de apenas três pessoas, chegando a cinco no período de colheita. “Além da palma, cultivamos neste ano, mais 310 hectares de sorgo de sequeiro. Esse material já está sendo ensilado para o período de estiagem”, adianta Paulo Baquit, proprietário da Fazenda Equador.

Os números impressionam: são 235 vacas que já chegaram a produzir, no túnel de vento, a média de 25 litros/dia. “Trata-se de um leite especial, tipo A, destinado à produção de iogurtes. Por isso obtemos uma melhor remuneração”, detalha Baquit. Para além do leite, o esterco passou ser fonte de renda na fazenda. “Como os animais ficam confinados, sobre uma ‘cama’ de madeira triturada, ao final de cada ciclo temos um adubo de altíssima qualidade”, ensina o produtor.

“A nossa principal meta é provar que a pecuária leiteira é viável no semiárido, desde que em novas bases tecnológicas”, pontua Baquit. Segundo ele, não há fórmulas prontas. “Estamos construindo um novo modelo, com base em experiências já existentes e de sucesso. Mas observando e respeitando nossas especificidades”, ensina.

DEPOIMENTOS

“Assim como o açude transporta a água no tempo, a silagem é um artifício para manter estoques de ração ao longo do período de estiagem. A atividade econômica no setor primário, principalmente em face do agravamento dos períodos de estiagem, só serão viáveis em bases tecnológicas. A silagem e a cultura da palma forrageira – tanto em escala como nos casos que visitamos – como em pequenas propriedades, deve ser o caminho para sustentabilidade no campo. São, sobretudo, soluções com baixa demanda por água.”

Francisco Teixeira

Secretario dos Recursos Hídricos

“Vimos, nessas duas experiências, como a produção bem estruturada pode viabilizar a sustentabilidade da produção. São iniciativas que, mesmo produzindo forragem de sequeiro, se mostram viáveis, pois a tecnologia da silagem garante o alimento para os rebanhos no período de estiagem. Já a palma forrageira, apesar de irrigada a partir de poços de baixa vazão, mostra-se viável, já que demanda pouquíssima água para o seu crescimento. Essas iniciativas costumam servir de exemplo para outros produtores que, diante do êxito tendem a copiar a experiência. Esse é um bom caminho.”

João Lúcio Farias

Presidente da Cogerh

“O cearense está reinventando a pecuária leiteira em novas bases: silagem, palma forrageira, melhoramento dos rebanhos e novas tecnologias. Isso tem feito a produção crescer mesmo no cenário de escassez hídrica.”

Francisco Viana

Assessor Técnico da SRH